Workshops

Vento e Água – Ritmos da Terra

Foi no passado dia 7 de Março, que demos início a uma nova vertente da Revista Vento e Água. Há falta de nomes mais originais, que nem sempre a originalidade é chamativa ou fácil, demos o título de Workshop Vento e Água.

 

Não se deixem enganar pelo domínio do Workshop, não são sítios de dicas, respostas prontas, ou mesmo dogmáticos. São espaços que expandem e contraem, que se diluem e se concentram em tentativas de delimitar os contornos da limitada psique eurocentrada.

E às vezes nem são espaços, são tempos entre espaços, um compasso em que se fala da complexidade do mundo em palavras que, enquanto mergulhamos, adquirem camadas. Seja esta enigmática descrição o suficiente para vos aguçar a curiosidade, para ficar atentos aos mais que se aproximam.

Não somos copywriters capazes de engajamentos massivos, somos mais poetisas de prosas animistas ou existencialistas, entre a tentativa de viver neste mesmo mundo em imanência.

Relembramos que os nossos Workshops Vento e Água não são gravados, queremos-vos em presença. 

Chá de Urtigas

Queremos mostrar-vos o lugar de passagem que fixámos no dia 7 de março com a Telma Laurentino. Mas primeiro é preciso saber quem é a Telma Laurentino.

Telma G. Laurentino

BIÓLOGA | EDUCADORA | ESCRITORA | ARTESÃ INTUITIVA | BIODIVERSIDADE – EVOLUÇÃO & GENÉTICA – SOCIOECOLOGIA – EDUCAÇÃO INCLUSIVA – PERTENÇA

Telma é bióloga evolutiva: estuda genómica de populações e como espécies diferentes evoluem e se adaptam a alterações ambientais. Nascida e criada em Portugal, viveu e trabalhou como investigadora em 2 outros países, e aprendeu com a biodiversidade em 5 continentes. Atualmente, foca-se no desenvolvimento de ensino inclusivo, para espaços de educação formais e informais, focado na complexidade socio-ecológica que habitamos. Escreve para processar os paradoxos da vida moderna e despertar os sentidos de ancestralidade comum e conexão ecológica profunda entre todos os seres vivos e o planeta Terra.
Experiencia a Terra com olhos de cientista, coração de poeta, pés de artista marcial, mãos de cuidadora, alma de guaxinim e riso de pêga-rabuda.

Telma G. Laurentino

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Entrelaçamentos Inegáveis

Coluna

No Workshop Vento e Água – Chá de Urtigas o convite era para uma cartografia ecossistémica das urticárias curadoras da modernidade.

 

Tal como as urtigas crescem nos muros, desafiamos epistemologias modernas e estéreis que nos aprisionam em ideias individualistas que suportam violências ecossistémicas. Crescemos entre as fissuras do muro, filosofias de emergência coletiva que valorizam as relações profundas e regenerativas, e entrelaçam o individual com o ecossistémico. Juntos, ouviremos profundamente as urtigas externas e internas que escondem, na urticária, a cura.

A Telma trouxe um poema de autoria própria de que vos deixamos algumas estrofes, podendo ser lido na íntegra na coluna dela nesta edição.

Sou Urtiga de terras modernas e urbanizadas.                                                                                                  

Há quem me chame erva-daninha. Quem me odeie pela urticária que me defende de predadores e pegadas distraídas. Odeiam-me porque cresço em sítios “inconvenientes” onde o vento me plantou.

 

E foi através deste poema que traçamos a cartografia individual, conjunta, comunitária. Que a Telma recolheu e transformou num poema coletivo, como a própria escreve: em tom de manifesto, hino, feitiço, oração.

Acordo com medo, deito-me com urtigas

Acordo de manhã, violência ecossistémica:

Querer,

Crescer,

Extrair,

Tirar,

Receber.

Ó, coração conturbado…

Dizem-me as urtigas: afogas-te no teu individualismo e esqueces a medicina na

erva daninha.

Deixa-te picar!

Perder,

Chorar, Amar.

Acordo de manhã, com vontade de fazer perguntas que incomodam:

Ó, corpo conturbado…

Dizem-me as urtigas: Presta atenção!

De quem te esqueces nos teus consumos confortáveis?

A quem falta

Nutrir,

Cuidar,

Escutar, Amar.

Acordo de manhã, para abrir e sustentar conversas difíceis:

Ó, mente conturbada…

Dizem-me as urtigas: Que labuta e sofrimento invisibilizastes para vosso conforto?

Para

Explorar,

Habitar,

Sem culpa nem responsabilidade.

Acordo de manhã, e posso escolher não saber:

Ó, privilégio conturbado…

Dizem-me as urtigas: Coragem! Deserta o individualismo e re-tece na tua teia os indivíduos que olvidas, ervas-daninhas, mineiros, água, vítimas de guerra,

algodão, estrume, ovelha…

Piquemo-nos! para

Renascer,

Reencontrar, Respirar.

Deito-me á noite, indagando qual o equilíbrio entre desculpabilização e

responsabilização,

cheia de certezas, medos mascarados de razão, que não me deixam Aninhar,

Devocionar,

Orar,

Aprender, Ser.

Ó, ecossistema conturbado…

Dizem-me as urtigas: não tenhas medo.

A mudança sustentável nutre-se da criatividade, que vive na pergunta. As picadas estimulam, aquecem, melhoram a circulação, acordam-nos a

capacidade de sonhar diferente.

Fecho os olhos, e sonho com urtigas.

Um poema ecossistémico com vozes de: Urtica, Telma, Sofia, Maria, Iolanda, João, Sílvia, Fernanda, Luísa, Inês, Patrícia, Maria, Marisa.

Por fim deixamos-vos a Música das Urtigas captada pela Telma para que possam ouvir a voz destes incríveis seres.