
Entrelaçamentos Inegáveis
Coluna de Telma G. Laurentino
3 MIN DE LEITURA | Revista 58
O Tempo Profundo da Terra e o Presente Sistémico dos Humanos
Quando seguro um geode, penso na beleza da soberania da Terra e na reforma de um homem Marroquino.
Há milhões de anos, em Tazmourt, Marrocos, um vulcão entrou em erupção. Basalto líquido moveu-se do manto da Terra (100 a 200 km de profundidade) até à superfície. Nesse processo gases ficaram retidos na lava. Criaram-se bolhas. Lentamente, a lava arrefeceu transformando a superfície das bolhas em basalto escuro e encerrando o espaço oco em rocha ígnea. Dentro da bolha de lava existe o potencial para beleza cristalina, mas para se realizar, necessita de tempo e infiltrações. O ciclo da água que chove à superfície e se entranha nas camadas ctónicas da crosta terreste infiltra os poros e fissuras das rochas. Infiltra o espaço encapsulado em basalto e leva consigo minerais, como sílica. Inicia-se então a lenta e complexa transformação físico-química do oco em cristal. Da periferia da bolha de basalto expandem-se cristais de quartzo em direção ao vazio central. As interações com outros elementos, como o ferro, podem também transformar o quartzo, de translúcido a roxo. Forma-se um geode de Ametista.
Após milhões de anos, sento-me no fundo de uma mina, ouvindo o som ritmado e trovejante do martelo que golpeia o leito de basalto com uma precisão e persistência impressionantes. Um mineiro Marroquino extrai um geode. Quando é finalmente separado da rocha-mãe, a olhos destreinados, o geode não parece particularmente interessante: um pedaço de rocha negra. Mas os ouvidos Amazigh que escutam aquela rocha há múltiplas gerações já adivinham o que os olhos não veem.
Cuidadosamente, o geode passa de mãos e, com uma mistura paradoxal de força e suavidade, outro homem bate um seixo, rolado pelo rio vizinho, ao redor do geode. Cria a fissura que o abre em duas metades.
O interior daquela bolha de lava conhece então a atmosfera terrestre pela primeira vez em milhões de anos, e a sua beleza interior tira o ar aos nossos pulmões mamíferos com clamores de surpresa. Levo as mãos à cara, em silêncio maravilhado, e logo tenho que as estender para segurar o geode que me é passado.
A rocha toca-me as palmas e penso no tempo, na improbabilidade, nas relações geoplanetárias da beleza que seguro naquele momento: alquimia terrestre. Toco os picos dos cristais de ametista gentilmente com o dedo e sinto como é lindo não só pelo seu aspeto, mas porque é conversa milenar entre forças vulcânicas, águas ctónicas, átomos astrais de carbono, silício, oxigénio, ferro, alumínio, e ferramenta ancestral humana, cultura indígena Marroquina… e algo mais.
Um dos mineiros, na casa dos 70 anos, extraindo vigorosamente rochas em sandálias, sem capacete ou luvas, estilhaços de basalto a ameaçarem os seus olhos desprotegidos, falou-nos das preocupações com um futuro em que já não poderá trabalhar com o martelo e a picareta:
“Não tenho um plano de reforma, embora tenha trabalhado arduamente toda a minha vida… quando não puder mais extrair cristais não sei o que farei.”
E aí está o “algo mais” que pesa nas mãos. Aquele geode é precioso também porque é forma de subsistência das pessoas daquela região que os exumam com mestria transgeracional. Entrelaçam-se então no cristal as dimensões humanas do capitalismo e da exploração das terras e corpos alheios. A extração de cristais é um esforço Imazighen que abastece mercados em todo o mundo, sem que os lucros cheguem às mãos e vidas daqueles que arriscam muito para desenterrar estes tesouros.
Pode parecer ridículo (ou não-iluminado), para alguns, sentir o pânico de reformas negadas, pensar no mercado e no colonialismo, quando se segura tempo planetário na palma da mão…
A Terra foi, é, e será soberana, sim. Nenhum império se sobreporá às forças litosféricas do tempo profundo e ao ciclo hidrológico, sim. Mas isso não nos pode desresponsabilizar da redução do sofrimento ecossitémico do presente, o sofrimento da vida humana e mais-que-humana também, pois estão totalmente entrelaçados.
Não podemos simplesmente entregar a Gaia a responsabilidade de gerir as violências dos sistemas que criámos e dos quais fazemos parte. Primeiro porque quem mais sofre não é quem mais contribui para a violência. Depois, porque o tempo profundo em que Gaia se move não responde à urgência dos gritos das crianças.
Estes momentos em que a grandeza, a força natural transcendental da Terra, se manifesta à nossa frente e nos recarrega de beleza e maravilha são inspiração, não desresponsabilização. São uma indagação sobre o porquê de haver tanta escassez e precaridade para tantos, num planeta tão maravilhosamente abundante para todos?
O colecionismo colonialista, o extrativismo, a exploração dos corpos indígenas, questões de classe… não são esquecidos, não devem ser apagados, mas tornados conscientes, através da experiência da maravilha.
Se perdermos a interseccionalidade da beleza e da dor, estamos separados da Vida.
E essa separação e escapismo, por parte dos privilegiados, está no cerne da violência que todos experienciamos (em diferentes graus e contextos), do luto ecossitémico. Os nossos corações e mentes podem segurar esta complexidade, porque também nasceram da complexidade da Vida.
Tal como um geode, o sistema que habitamos parece-nos muitas vezes fixo, imutável. Mas as rochas têm ciclos também. Metamorfoseiam. A aparência estática e imutável do geode é desafiada pela realidade da sua porosidade. Das mudanças de fase, das infiltrações que levam à sua formação magnífica. Assim são também os sistemas socio-económicos opressores e as necropolíticas que habitamos: porosos, maleáveis, com potencial para se transformarem transgeracionalmente em algo mais belo, mais justo.
Não nos esqueçamos que a nossa responsabilidade para com a utopia da liberdade de todos, honra a beleza que a Terra oferece.
A soberania da Terra não nos desresponsabiliza da redução de sofrimento ecossistémico, lembra-nos que é um processo longo, cheio de sismos e falhas. E pelo caminho, encontramos beleza e carinho uns pelos outros.
Para citar este artigo:
G. LAURENTINO, Telma. O Tempo Profundo da Terra e o Presente Sistémico dos Humanos. Vento e Água – Ritmos da Terra, https://ventoeagua.com/revistas-online/revista-58/o-tempo-profundo-da-terra-e-o-presente-sistemico-dos-humanos, número 58, 2025
Tal como um geode, o sistema que habitamos parece-nos muitas vezes fixo, imutável. Mas as rochas têm ciclos também. Metamorfoseiam. A aparência estática e imutável do geode é desafiada pela realidade da sua porosidade. Das mudanças de fase, das infiltrações que levam à sua formação magnífica. Assim são também os sistemas socio-económicos opressores e as necropolíticas que habitamos: porosos, maleáveis, com potencial para se transformarem transgeracionalmente em algo mais belo, mais justo.

Telma G. Laurentino
Bióloga
Educadora
Escritora
Artesã intuitiva
Biodiversidade – Evolução & Genética – SocioEcologia – Educação inclusiva –
Pertença
TelmaGL.com
Telma.laurentino@gmail.com