Ciclos da Terra e da Alma

Coluna de Íris Lican Garcia

1 MIN DE LEITURA | Revista 49

Devoção: do Devorar dom Coração

 

Quantas vezes renunciamos à forma única em que a Vida nos fala?
Quantas vezes fazemos da revelação repressão?
O que de transformador te diz a mais forte imagem interior que hoje te acompanha?
Não sobre os outros, mas sobre ti, de forma íntima e total.
Ouves?
Deixa-me contar-te a história viva em mim, do dia em que um demónio me devorou o coração. 
Chovia. Chuva forte e névoa densa na serra, onde os caminhos conhecidos se enleiam e nos perdemos nos próprios passos. 
Tempo sem tempo de um lugar aberto ao tremor de caminhar só no mau tempo.
Chovia por dentro de mim, silvos de vento atravessando a pele, cabelo escorrendo, como as teias de aranha contendo água em contemplação.
Sentei-me sobre a Terra molhada olhando o vale denso, o medo da tempestade, da solidão, da imprevisibilidade que é vulnerabilidade perante o selvagem.
Foi então que o vi.
Improvável, táctil, certeiro e concreto como a pele, o osso, a Alma.
Agachado junto a uma velha raiz, forma disforme, sem sequer me tocar, arrancou-me do peito o coração.
Comia-o lentamente, eu observava de longe.
Podia fugir da visão, da imaginação, da revelação. Podia, mas depois, não veria e eu não vim para estar cega mas antes para ampliar o olhar.
Senti o frémito entre a loucura, a profundidade e o medo cru.
Então, decidi ficar. Sem fugir, sem lutar.
Propus-me sentir toda a incongruência e realidade atroz, feroz.
Ofereci o meu coração ao bosque selvagem no seu aspecto mais demoníaco, cru, cortante. Devorou-o a tragos lentos, enquanto me olhava nos olhos e a penumbra adensava.
E devagarinho, veio um Amor que não teme Amar a diferença, a incongruência, a estranheza e os lugares inóspitos e tenebrosos.
Veio o peito aberto de tão vazio, veio o beijar-lhe os pés e as mãos disformes e antigas como a própria Vida, tão maior que eu. 
O dia em que um demónio me devorou o coração, a noite densa tomou-me e ante a mais dilacerante dor de parto da Alma, fui acolhida e cuidada num colo de estrelas a céu aberto.
A noite caiu sobre mim, as violetas das feiticeiras pautando o caminho.
Ele desapareceu, sorrindo. Olhei novamente, onde claramente estava só havia o trilho estreito.
Mas agora, o caminho, era Eu, já feita chão coração.

Para citar este artigo:

GARCIA, Íris. Devoção: do Devorar do Coração. Vento e Água – Ritmos da Terra, https://ventoeagua.com/revistas-online/revista-49/devocao-do-devorar-do-coracao/, número 49, 2024

Ofereci o meu coração ao bosque selvagem no seu aspecto mais demoníaco, cru, cortante. Devorou-o a tragos lentos, enquanto me olhava nos olhos e a penumbra adensava.
E devagarinho, veio um Amor que não teme Amar a diferença, a incongruência, a estranheza e os lugares inóspitos e tenebrosos.
Veio o peito aberto de tão vazio, veio o beijar-lhe os pés e as mãos disformes e antigas como a própria Vida, tão maior que eu. 
Íris Garcia

Íris Garcia

Colunista e Autora regular da Revista

Sou a Íris. Sou Mãe, Terapeuta e Educadora Psico-Somática, Formadora de Fertilidade Consciente, Yoga Terapeuta, Doula, Mulher Medicina, Herbalista, Artista de Dança, Autora, Investigadora e ecologista. As minhas linguagens primeiras são a Natureza, a escrita e o movimento. Caminho, danço e escrevo desde que me recordo. O que me move é a vontade de cultivar equilíbrio sistémico a partir do respeito pela Natureza intrínseca de cada pessoa e sua experiência íntima e única,  em inter-conexão com as suas relações humanas e naturais, desde o lugar do corpo em proximidade orgânica com a Terra Viva.

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