A Casa Simbólica

O conceito da casa simbólica esta na génese de todo o meu trabalho, fundamentando e norteando a minha experiência da vida. Um trabalho atento de presença integral na vida. Uma vivência sincera dos processos naturais da vida e do lugar que ocupam.

É uma perspectiva tão antiga quanto nova. Tão complexa quanto simples. Representa um movimento de mergulho nas texturas do mundo, nas suas metáforas e significados.

De fora pode parecer abstracto ou simplista. Na verdade, não é uma coisa nem outra. Passo a explorar o que fundamenta este meio caminho de integração com a realidade das coisas.

Somos seres múltiplos, magnéticos, elétricos, energéticos, mentais, emocionais e sensoriais, tudo isto bem incorporado na nossa biologia, no nosso corpo-templo. Somos também seres simbólicos, de metáforas, histórias e mitos. Interagimos desde a origem com o nosso contexto, lendo-o, ouvindo-o, sentindo-o. Participamos activamente na realidade das coisas usando todas estas valências e necessidades.

Relacionamo-nos com as correntes de consciência e sabedoria que nos envolvem, apanhando o fluxo das coisas e manifestando soluções. Somos sabedoria cósmica em movimento.

Uma vivência simbólica é, na sua essência, uma experiência sistémica da realidade. Um símbolo, por ser símbolo, está sempre conectado a outra camada, a outra coisa ou dimensão da criação. Então quando trabalhamos com símbolos, usando-os activa e intencionalmente, operamos nos fios de energia que inter-relacionam a matéria, as ideias e as coisas.

Os símbolos movem estes fios da rede de consciência e sabedoria sistémica que nos envolve e sustêm. À qual pertencemos incondicionalmente. Os símbolos são chaves de transmutação e mudança. São codificadores da memória integra e ancestral do cosmos.

Neste rico contexto cosmológico resgatamos a casa, a casa planeta, a casa comunitária e a casa individual, a casa talismã que tudo une. Todas elas estão interligadas. O lar-singular nunca está separado da casa-cosmos. Tudo está relacionado. Então a casa simbólica nos leva a uma dimensão para lá do véu da materialidade. Para além de uma vivência causal ou redutora da realidade.

A casa simbólica, que alberga o corpo-templo, é um manifesto de presença, responsabilidade e acção. Funciona como portal de resgate da sabedoria ancestral e da sua adaptação às urgentes necessidades. A casa simbólica funciona como limiar de transição entre uma vivência monolítica de necessidades narcisistas e uma imersão diversa e profunda na sabedoria sistémica. Rendemo-nos a uma participação responsável e integrada no grande esquema das coisas. A casa simbólica relembra-nos de quem realmente somos e da urgência de relembrar.

A casa simbólica reporta-nos a uma visão encantada do mundo.

Aprendo e honro esta experiência antiga através dos princípios do feng shui, conhecimento indígena enraizado (estando consciente e em respeito da apropriação cultural), permacultura e ecopsicologia, trabalhando para recordar a ligação fundamental, complexa e antiga entre as nossas paisagens míticas interiores e exteriores.

Sofia Batalha

Sofia Batalha

Fundadora e Editora da Revista

Mamífera, autora, mulher-mãe, tecelã de perguntas e desmanteladora o capitalismo-global-colonial-tecnológico um dia de cada vez. Desajeitada poetiza de prosas, sem conhecimentos gramaticais. Peregrina pelas paisagens interiores e exteriores, recordando práticas antigas terrestres, em presença radical, escuta activa, ecopsicologia, arte, êxtase, e escrita.
Autora de sete livros e editora da revista online e gratuita Vento e Águapodcast Re-membrar os Ossos e Conversas D'Além Mar.