Feng Shui em tempos de Crise

Na verdade, o Feng Shui é uma ferramenta de observação milenar que procura encontrar soluções especificamente em tempos de crise, propiciados por tragédias humanas ou cataclismos ambientais. É um conjunto de técnicas para (re)encontrar a estabilidade, a vitalidade e a continuidade em tempos de incerteza. 

Nunca como nestes últimos intensos e desafiantes tempos foi o Feng Shui tão importante, presente, real e concreto. Nestes tempos de contenção e quarentena, onde somos, sem querermos realmente, acolhidos e fechados nas nossas casas. A estrutura casa inadvertidamente vira prisão. As paredes fecham-se sobre nós, faltando o ar, os dias correndo lentos, aborrecemo-nos, perdemos linhas de pensamento e as emoções ficam intensas, mas dispersas.  

Numa relação ideal, fora de tempos de crise que tudo intensificam, as nossas casas devem acolher-nos, nutrindo-nos e dando-nos energia.

São obviamente tempos diferentes, paradoxais onde nos podemos sentir à beira do abismo do isolamento assim como da ansiedade e do medo. Ou simplesmente apáticos e aparentemente desligados, como se estivéssemos a ver um filme lá longe, um filme que não é a nossa vida.
Para alguns de nós todo o tempo abrandou, as rotinas intensas do dia-a-dia dissolveram-se. Pararam repentinamente.
O que fazer agora? Onde me agarrar?
Este estar sem vontade, sem querer, abre caminho a um trauma colectivo e começa a instalar-se, permeando toda a nossa vida, todas as camadas e todos os sentires. Com toda a intensidade do momento que vivemos, as manifestações podem ser violentas, podemos sentir-nos violentados emocionalmente, desequilibrados mentalmente e aprisionados fisicamente.
As dúvidas de futuro acomodam-se e as preocupações enchem-nos o dia-a-dia. Como vai ser a seguir, o que vai acontecer à vida, como vamos resolver esta situação. A falta de dinheiro com contas por pagar, as dificuldades de conjugar tudo em casa, desde a educação dos filhos ao chamado teletrabalho.

Este é, naturalmente, um evento que aparentemente nos transcende. É um evento mundial, social e comunitário, mas que apesar de tudo fala também de quem somos e onde estamos. Fala-nos também de como vivemos a nossa vida, como este nosso dia-a-dia, esta normalidade, toca a quem verdadeiramente somos. Como nos relacionamos. Como a vida que vivemos antes de tudo isto acontecer nos trazia significado e alinhamento, ou não.

A Gentileza

Esquecemo-nos de reencontrar esse espaço interno para nos mantermos em fluxo no espaço externo que é a nossa casa, que nos acolhe o melhor possível agora.
Claro que nem todos vivemos estes desafios da mesma forma, pois depende das nossas relações, das nossas decisões do passado, do nosso contexto familiar e da nossa saúde integral. Seja qual for o nosso contexto é essencial sermos gentis connosco. Compassivos. Suavidade na relação com as nossas emoções mais violentas. A culpa ou a vergonha não ajudam a manter-nos sãos enquanto passamos por esta fase.

O Casulo

A imagem metafórica da casa que nos engole como um casulo gigante é uma imagem de transformação. Interna e profunda.
Uma transformação fundamental no tecido da nossa realidade. Lembremo-nos do que se passa dentro de um casulo: no processo de transmutação entre uma lagarta e uma borboleta todo o seu corpo é liquefeito. Todo o corpo da lagarta se desfaz, inteiro e inteiramente, ficando numa papa. Depois, na fase seguinte, todo ele é recomposto célula a célula, função a função, membro a membro, órgão a órgão. Esta liquefação, este desfazer, é algo doloroso que queremos a todo o custo evitar. Evitamos a dor naturalmente, mas com ela evitamos também a possibilidade de transformação, pois a dor pode também ser um agente valioso que nos ajuda a libertar e a desaprender, tudo o que não nos serve. Para voltarmos à tal simplicidade e alinhamento, à nossa essência, para a partir daí construirmos algo mais verdadeiro, mais concreto, mais poderoso e mais vital. 

Simplicidade

Estes novos tempos reclamam simplicidade, falam de voltarmos ao básico, ao que realmente importa, ao tempo presente de quem somos.

Quando falo de voltar ao essencial falo de repensarmos sabia e humildemente os nossos padrões de consumo. Naturalmente, numa sociedade consumista, os nossos hábitos de consumo são bastante intensos e muitas vezes confundidos com bem-estar emocional. Ao nos permitirmos voltar ao simples de forma inteira e consciente percebemos e reconhecemos que, honestamente, não precisamos de tanta coisa. A grande maioria de nós, privilegiados, temos tudo o que realmente precisamos.

Natureza

Durante este condicionamento é fundamental não perdermos a integridade do nosso fluxo vital e não nos esquecermos da nossa necessidade de conexão com o mundo natural.

Esta conexão com a natureza é algo que nos ajuda no equilíbrio emocional e é urgente que seja resgatado e ativado mesmo, e principalmente, estando dentro de casa.

Podemos começar por olhar como se fosse a primeira vez pelas janelas da nossa casa, olhar para o que nos rodeia, observando os elementos naturais que conseguimos encontrar no campo de visão: as árvores, os montes, os arbustos, as flores, as ervas daninhas, os pássaros, os insectos ou mesmo pequenos animais. Tudo o que seja vivo, vital e senciente. Mesmo vivendo num apartamento podemos conectar-nos com a energia da terra ajudando assim ao fluxo das ondas emocionais que se abatem sobre nós diariamente e de forma mais intensa quando nos sentimos aprisionados. As janelas são sem dúvida os pontos de vista da nossa vida, mas agora tornam-se também pontos de conexão vital ao exterior natural, de onde podem surgir mensagens e sincronias.

Naturalmente que temos as paredes que nos contêm, mas este contacto directo com as janelas ou com as varandas não têm que ser feito dentro de portas, podemos e devemos abrir as janelas a cada dia, pois esta renovação do ar interno da casa ajuda que a energia continue em movimento e ativa. Não se tornando letárgica ou pesada, confinando-nos ainda mais. Quem vive em moradias tem acesso privilegiado ao chão, sem sair de casa. Aproveite-o!

Espaço

Falava da necessidade de reclamarmos novo espaço de reencontro. Novo espaço emocional e de identidade para vivermos este presente intenso e ainda enclausurado.

Não quer dizer que tenhamos que deitar de repente tudo fora. Podemos fazer uma limpeza energética ou uma limpeza intuitiva. A limpeza intuitiva significa que vamos escolher intuitivamente dos objetos ou das mobílias que temos em casa, as que representam fases que já não queremos viver ou que já não queremos que estejam presentes na nossa vida. Elementos, cores ou memórias, livros ou fotografias, que representem padrões já terminados e ciclos já vividos. Através da libertação destes objetos-âncora, carregados de simbologia pelas memórias e vibração que contêm, encontramos espaço valioso para recriar a nossa rotina, recriando os nossos interesses e assim voltarmos ao essencial.

Muitas vezes o nosso bem-estar está à distância de uma simples mudança de perspectiva da forma como olhamos e sentimos as coisas. Naturalmente que passamos por uma fase desafiante para a humanidade, um momento de crise intensa. Mas que pode ser também visto como uma oportunidade, onde podemos abrir-nos ao que é, podemos ser o melhor de nós, manter-nos ao serviço da nossa comunidade e família, mantendo-nos ativos e presentes.

Este artigo é dirigido a quem está em confinamento e sentiu toda a sua rotina e toda a sua vida desmoronar-se de um dia para o outro.
Não contempla vidas onde as pessoas não têm o privilégio de ter a segurança da casa, seja por relacionamentos violentos e abusivos, seja por não ter casa agora.
Não contempla os desafios de quem trabalha na primeira linha com toda a responsabilidade que isso acarreta.

Sofia Batalha

Sofia Batalha

Fundadora e Editora da Revista

Mamífera, autora, mulher-mãe, tecelã de perguntas e desmanteladora o capitalismo-global-colonial-tecnológico um dia de cada vez. Desajeitada poetiza de prosas, sem conhecimentos gramaticais. Peregrina pelas paisagens interiores e exteriores, recordando práticas antigas terrestres, em presença radical, escuta activa, ecopsicologia, arte, êxtase, e escrita.
Autora de sete livros e editora da revista online e gratuita Vento e Águapodcast Re-membrar os Ossos e Conversas D'Além Mar.