SENTAR-SE NA FONTE.

A CRIATIVIDADE SELVAGEM COMO RESPOSTA AO COLAPSO

Este texto ia ser sobre outra coisa.
Quantas vezes é assim?

A vida que planeámos não é apenas escrita por nós, mas antes para nós. Há uma caligrafia desenhada a corpo e estações da Terra que nos convida a escutar antes de agir, para poder ser diálogo pertinente com tudo o que vive e co-existe dentro de nós e fora, connosco a diferentes distâncias e qualidades.

Hoje sentei-me na fonte.
Vou buscar Água à Serra de Sintra, semanalmente.Sim, eu bem sei que podia apenas abrir a torneira. Mas será que sabemos o valor da Água se não lhe sentirmos o peso? Se não soubermos o tempo do seu escorrer vagaroso pela pedra ancestral até nos chegar?

Será que conhecemos a Água sem a sentir viva e selvagem? É que uma Água indomada tem uma qualidade de bravia bravura: não tem medo de ser exactamente aquilo que é e limpa-nos as ideias de que as Águas livres podem fazer-nos mal. A liberdade não nos corrompe. Pelo contrário, só nos corrompe a sua falta, o constrangimento, a opressão de uma segurança onde escrevemos tanto cada momento das nossas vidas que não damos espaço a ser a história viva que nascemos para ser, sem sabermos como.

Hoje sentei-me na fonte.

A estrada estava fechada ao trânsito. Ia na companhia de uma jovem Mulher que tanto admiro, 20 anos mais jovem do que eu, mas nunca menos Mulher. Porque definir alguém por uma idade também é retirar-lhe o direito de ser quem é e não apenas a contagem do tempo cronológico.

Sentámo-nos ambas entra altas árvores, a luz do sol filtrada chegava ao chão. Permanecemos em silêncio na escuta do simples e total do canto das Águas, dos pássaros, das Árvores que dão ao vento a sua voz.

O silêncio é a nossa capacidade de escutar a tanta comunicação não humana, as tantas e múltiplas linguagens que ecoam na natureza viva e na nossa natureza íntima e que nos pedem um despojar de conteúdos para poder estar em presença da constante comunicação única, ancestral e  eternamente renovada.

Gosto de me obrigar a este tempo de ir buscar Água à fonte, de me sentar na fonte.

Porque é uma prática que nos permite voltar a ter tempo para sentir sem que o tempo cultural nos engula e abocanhe o nosso tempo de vida sem lhe darmos sentido.

A Mulher comigo mora na cidade. Ao sentar-se na fonte, abriu o coração e chorou. Eu não disse nada, não perguntei nada. Mas a fonte de Águas selvagens já estava a falar com ela, e comigo, abrindo caminho a que o nosso coração pudesse ser simplesmente aquilo que é. Sem defeitos que não sejam o composto alquímico das nossas virtudes; sem virtudes que em excesso não se tornem obsoletas e prontas a cair como composto.

O tempo da maturidade requer despojamento.

Entramos no Outono com a benção das colheitas, que são na verdade o mais total abraço da Vida e da Morte: contêm em si o fim de um ciclo e o início invisível de outro. O fruto maduro e a semente são um só, mas deixarão de ser.

A nossa maturidade tem como serventia ser doada. A generosidade requer despojamento e saber que: não são as nossas ideias ou criações que nos definem ou dão valor. O que nos define é sermos uma força criativa interminável que até à morte consegue seguir dando sentido, porque somos parte da Terra e isso é o que ela faz. Todos estes frutos que colhemos vieram de um chão que se criou de osso, tronco, folha e matéria morta que do pó deu ninho à semente que assim se ergueu para ser e amadurecer.

Não adianta reclamar autoria desta ou daquela ideia, deste ou daquele acto ou parecer. Porque o que se pariu já tem identidade própria, se foi para o mundo tem relação connosco mas não nos pertence. Tal como o fruto tem relação com a árvore mas dela se aparta para seguir a jornada. 

Mais do que fazer da autoria uma autoridade é essencial praticar a via criativa no seu expoente máximo: somos potência criativa, todos nós. É tempo de caírem as máscaras que nos impedem de aceder a essa força que jorra selvagem em nós. É tempo de fechar as torneiras, libertar as barragens, encontrar os rios e nascentes que ainda jorram livres em nós ou libertar os que estão contidos. Não, não é preciso confiança, é só preciso fazer acontecer. Porque num mundo doente de tão dormente anestesiado, só a criatividade sensível e selvagem pode trazer soluções ainda invisíveis mas tão mais pertinentes do que as comprovadas, porque novas, frescas, actuais.

Senta-te na Fonte.
Não esperes nada de especial.
A Água fresca é especial que baste.

A criatividade selvagem resgata a inocência de mãos dadas com a maturidade, como uma criança de mãos dadas com a avó anciã. A criatividade selvagem não se contenta com filosofias fechadas, ela é uma busca constante sob a forma de curiosidade e brincadeira. Ela não evita quedas porque quer sobretudo que aprendamos a cair, a levantar-nos, a estar no chão quando o caminho perde o sentido e a trilhar outro, por onde nunca ninguém andou.

A criatividade selvagem desarruma, deseduca, abre espaço à autenticidade sem desculpas. Não, não seremos socialmente correctos. Seremos pessoas de risco, e de rabisco. Pessoas de retalhos costurados a linha da vida. Inteiras por saber refazer as tantas quebras e rupturas, não no que eram antes, mas na corrente que se tornam.

A criatividade selvagem é uma colheita: ao mesmo tempo que se colhe já pede para ser semente e largar o fruto maduro para, com humildade e resiliência, iniciar de novo a jornada de crescimento, outra vez, mas sempre pela primeira vez.

A criatividade selvagem destrói títulos, hierarquias, e diz-nos que a aprendizagem é constante e é com tudo e todos. Que se faz com os valores vivos das colheitas: colher o fruto; partilhar a abundância com as gentes, bichos e chão; guardar as sementes para plantar no próximo ciclo; preservar o que sobra para ter em tempos de frio. Observar e ser como a árvore, que se despoja dos frutos e folhagem mas nem por isso desaparece. Pelo contrário, ergue-se nua diante do Inverno, com dignidade e integridade, com potência nas raízes e vazio no coração porque sabe que é tempo de aguardar até recomeçar. Não é tempo de ir atrás do que já foi, mas de saber estar onde está. Cada folha, uma pele que cai e se torna camada quente de chão protector e fértil. A nudez da árvore é casa de tantos pequenos seres, pode parecer pobre à primeira vista, mas pulsa de generosidade.

A criatividade selvagem atreve-se a ver Deus nas coisas mais pequenas. Um Deus que ri, se suja de lama e nunca é o mesmo porque pode ser qualquer coisa e em tudo vive.

Resgata-a já.

Senta-te na Fonte. Protege-te menos, expõe-te mais como faz a árvore e a água viva. A resiliência só se cria na dança entre encontro e desencontro.

Senta-te na Fonte: deixa que a fonte te leve onde te quiser levar. Sem plano. Pois sim, que haverá resistências, não faz mal nenhum, também há pedras no leito do rio e só o tornam mais belo.

Senta-te na Fonte: deixa-te chorar as dores do mundo que trazes no coração e do coração do mundo. Só chora quem é fecundo, as Águas selvagens agitam-se em nós e precisam de ter voz.

Senta-te na Fonte: deixa ir os objectivos cumpridos, os sonhos materializados e os que morreram sem ser.

Esta fonte não é metáfora, nem visualização, nem meditação. 

Tem dimensão interior mas precisa de ser vista e ouvida no lugar onde existe verdadeiramente. Não pode ser filtrada somente vivenciada directamente. A Fonte é um lugar solene, tem muito para contar e resgata a criatividade mas não pode ser ficcionada. Porque a fonte fala de parir as Águas, de trazer de dentro para fora. Por isso não pode ser apenas interna. A fonte fala de conexão, de intimidade com as forças desconhecidas da Natureza que são mais do que a sua imagem. 

Senta-te na Fonte, e deixa a fonte assentar em ti.

Já é tempo de sairmos do comodismo e da domesticação cultural e sermos bichos raros e estranhos, agitados pelo Espírito da Vida. 

Pratica a criatividade selvagem passo a passo, para resgatar a alma das prisões de uma identidade estreita demais, viemos aqui para respirar a plenos pulmões, não para viver espartilhados.

Busca lugares naturais, passa tempo sem tempo neles.

Se o tempo do sentir se esgota iremos matar a poesia das nossas vidas. Matar a poesia é deixar de conseguir fazer Amor com a vida e querer prazer daquele que nos consome e consumimos mas que não nutre.

Come frutas da estação, de pequenos agricultores. Feias e imperfeitas, vindas da fonte que é terra feita árvore, sendo só o que é sem ter que ser outra coisa mais bonita ou brilhante ou doce.

Descalça-te e despe-te mais. Vai para locais naturais recônditos com uma melhor amiga ou amigo que vigie se vem alguém e atreve-te a abraçar pele a pele as Águas do rio, do mar, a pedra , a árvore, o chão verde. Temos que despir a folhagem para abraçar a inteireza.

Quando o olhar, a boca e a pele conversam com as fontes da Vida Selvagem, começa a revolução evolutiva. Aquela que faz dos sentidos ponte de comunhão e pertença aos ciclos e paisagens livres.

Resgata a voz: canta a tua canção e expressa a tua oração, espontaneamente, no momento, como for. Sem querer nada senão apreciar aquilo que é. Sem pedido adjacente nem objectivo traçado. Só a vontade de encantar a vida outra vez, enche-la de um amor que não precisa de palavras correctas nem vozes canoras para dizer a verdade essencial do seu sentir.

Expressa: cria espaço no teu dia para pintar, costurar, tecer, escrever, dançar, modelar, o que seja que as mãos possam fazer com movimento e que seja teu. Sobretudo se a tua profissão requer uma rigorosa disciplina sem espaço criativo. Tem que haver espaços e tempos desarrumados e sem rumo. Lembra-te que a Água é toda ele rio, mesmo se se empresta à torneira.

Olha nos olhos quando falas com alguém, sustenta o olhar. Se não nos vemos, como sabemos quem somos? Se não nos vêem como nos podem conhecer e entender? Como podemos conhecer seja quem for?

Deixa espaço em branco: como vou deixar aqui. Para quaisquer outras ideias que não as minhas mas as tuas, e que possam apoiar esta jornada de regresso à Fonte, ao lugar da criatividade Selvagem.

Sentes-te colapsar? Aprende a cair, como a Água. E depois flui e rega, nutre a sede de tudo e todos a que tocas.

Está tudo a colapsar? Está, aprende a deixar ir os frutos preservando a inteireza de Ser raiz firme e flexível, como faz a Árvore.

Estamos aqui para ser felizes? Claro que sim, mas não só. Um Amor que não conheça a dor e através dela se expanda e transforme não é Amor, é um romancinho.

Boa estação das colheitas, onde colhemos tanto quanto somos colhidos.

E já em jeito de fechar de círculo, só para que não fique esquecido o objectivo de sentar na Fonte:

SENTE-TE NA FONTE!

Esse é o verdadeiro caminho da Alma e coração, onde somos inseparáveis da Teia da Vida onde tudo nos afecta e tudo afectamos. É portanto aqui que vive o Sagrado.

Iris Lican

Iris Lican

Colunista e Autora regular da Revista

Sou a Íris. Sou Mãe, Terapeuta e Educadora Psico-Somática, Formadora de Fertilidade Consciente, Yoga Terapeuta, Doula, Mulher Medicina, Herbalista, Artista de Dança, Autora, Investigadora e ecologista. As minhas linguagens primeiras são a Natureza, a escrita e o movimento. Caminho, danço e escrevo desde que me recordo. O que me move é a vontade de cultivar equilíbrio sistémico a partir do respeito pela Natureza intrínseca de cada pessoa e sua experiência íntima e única,  em inter-conexão com as suas relações humanas e naturais, desde o lugar do corpo em proximidade orgânica com a Terra Viva.