A vida, esse evento misterioso de devir complexo e presente. Essa história que se desnovela a cada momento em cada lugar. A vida como território selvagem de relações entre o que foi e o que será.

A ocorrência da modernidade encapsula-nos numa visão e percepção mecanicista das coisas, dos eventos e da realidade.
Esta visão mecanicista pressupõe que existe uma linearidade causal nos processos, que o propósito último é servir o ser-humano e que para resolver algo basta arranjar “a parte” avariada.

Esta percepção simplista e trágica isola-nos do diálogo da vida. A simplificação da natureza enquanto máquina, na sua metáfora mecanicista, retira-a automaticamente da sua soberania, da sua capacidade criativa e devir altamente complexo. Muitos contextos fazem parte de uma vida, de um lugar, de um ecossistema. Contextos esses sempre em diálogo profundo e misterioso.

Pois, nem todos os diálogos são feitos para serem ouvidos, muito menos para serem quantificados, controlados ou categorizados.

A riqueza de cada momento encontra-se exactamente nesta rede de trocas sistémicas que nos envolve, desde o ar que respiramos, à água que bebemos até a cada alimento que nos nutre. Neste emaranhado intrínseco da vida as “partes” não são nunca separáveis, pois, apesar da sua singularidade e propósito peculiar, nunca existem fora da teia da vida. Nesta valiosa biosfera que nos envolve tudo se encontra dentro, em imanência profunda. Submergimos, rendendo-nos a estas sagradas conexões dinâmicas que tudo compõem, que a tudo respondemO núcleo da co-criação.

Na nossa mente mecanicista confundimos complexidade com complicação -os nossos dicionários dizem serem sinónimos-. O advento tecnológico das máquinas industriais, que tanta produção e conforto nos traz, vem de um posicionamento de necessidade de arrumar a realidade, para que seja mais fácil de a controlar e vergar às nossas necessidades humanas. Ora não retirando o valor da proeza técnica, é urgente não continuarmos a confundir a tecnologia com a própria vida, nem lhe entregarmos a nossa própria sobrevivência. A tecnologia não vai salvar o mundo -e, sim, o mundo precisa de ser “salvo”, ou melhor dizendo, precisamos de nos salvar de nós próprios-.

A tecnologia, desde os tempos primevos de gestão do fogo, traz sem dúvida novas possibilidades, mas, na sua utilização actual mutila o selvagem, amputando o enigma múltiplo que nos concebe. A hierarquização do ser humano como pináculo evolutivo, como o centro da criação ao qual tudo o resto apenas existe para o servir, tem servido de base e desculpa à sinistra narrativa destrutiva que sustenta tanta violência invisível, sob a qual o nosso conforto diário está assente.
Quando o poder é representado por progresso e propriedade, quando o capital e valor sublinham que uma floresta é mais valiosa cortada que em crescimento e regeneração milenar, partimos de crenças invisíveis e submersas de superioridade que inviabilizam qualquer diálogo humilde e sincero. Qualquer regeneração profunda.

Partimos ao saque da vida para armazenar valor, pois acreditamos que não o possuímos intrinsecamente. Temos de nos provar, uma e outra vez, temos de encaixar para adormecer o medo. Trocamos o valor imanente da vida pela quantificação e cotação de tempo ou aptidões. Calamos a alma. Esquecemos quem somos.

O território da vida é selvagem, imprevisível, abundante e espontâneo. Não é arrumado como gostaríamos, mas pleno de exuberância, intensidade e pluralidade. Não é nosso nem controlável. O território da vida é o lugar da alma, não sendo reproduzível cientificamente em ambiente controlado, mas um espaço-tempo de histórias pleno de significados.

Esta visceral teia de vida conspira a nosso favor* se assim o permitimos. Não temos de ir a Marte buscar possibilidades ou maiores (sempre cada vez maiores) “conquistas” e “descobertas”. Só temos de estar aqui e ouvir, sentir. Em presença vinculada à vida que somos, ao território que nos sustenta a cada momento da nossa vida.

*Conspirar a nosso favor NÃO significa ter uma vida para ser sempre feliz e alegre, não ter defeitos ou tragédias pessoais, onde todos os nossos desejos e expectativas se cumprem. Quando a vida conspira a nosso favor abre-nos o coração ao que é, apesar do medo e das limitações culturais. Permite-nos sentir de novo que estamos vivos, responsáveis e presentes.

@sofiabatalha

Sofia Batalha

Sofia Batalha

Fundadora e Editora da Revista

Mamífera, autora, mulher-mãe, tecelã de perguntas e desmanteladora o capitalismo-global-colonial-tecnológico um dia de cada vez. Desajeitada poetiza de prosas, sem conhecimentos gramaticais. Peregrina pelas paisagens interiores e exteriores, recordando práticas antigas terrestres, em presença radical, escuta activa, ecopsicologia, arte, êxtase, e escrita.
Autora de sete livros e editora da revista online e gratuita Vento e Águapodcast Re-membrar os Ossos e Conversas D'Além Mar.